Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar…
Mário Quintana
Atravesso fases. Sou de luas. Tem vezes que quase me acabo de tanto fumar, ou tanto cigarro aceso e ardido, ora esquecido, ora sugado. A atmosfera dentro da casa pesa e eu encolho os ombros porque me pesa em igual medida a vida lá fora. Apesar de dizerem que o ar é corrente e de que, na última semana, até parece que refrescou. Nessas alturas, quando me acho assim, não quero saber de nada, nem de ninguém. Tudo é este torpor de criação e brotadura pressentida, que faz que sai mas não sai e também não importa. Porque, na verdade, faz muito tempo que já nem sequer é isso o que mais importa. O que interessa – o que me interessa – é que o sinto a formar-se ao longe, num longe muito dentro, que depois avança num turbilhão tão rápido que é quase inútil e se faz estéril. Mas a mim consola-me este frémito, esta pulsão compulsiva, largarda, disparada e desbaratada, em tropel incendiário. Perco o norte, perco o freio, esqueço-me do rumo, não quero saber que horas são, não sinto fome, não sinto sono, não sinto frio, não sinto precisão de nada nem de ninguém. Nem sequer de mim mesma, para ser sincera. Se o mundo se acabasse nessa hora, provavelmente seria igual. Isto se chegasse sequer a dar-me conta, absorta que estou nesses abismos desconexos, absurdos e totalmente inconsequentes. A cor do dia muda do lado de lá da janela, mas eu não quero saber. Não quero ver. Só faço de fumar ou acender cigarros que ora sorvo, ora se apagam sozinhos, distraídos da minha mão, da minha boca, do meu pulmão chumbado, do coração desatinado. Essas são as fases em que tenho uma propensão irreprimível para tudo quanto se diz que não se deve ou não se pode. Tudo em mim pede o que faz mal. Como porcarias, não prego o olho, respiro este ar viciado que já nem a ragem que se diz que pelo menos refrescou e é corrente, que entra de fora, pelas janelas escancaradas, serve para limpar a atmosfera fedida que está contida entre as paredes da casa, esta nuvem pesada, densa, funda. E tão pouco me importa que se zanguem, que reclamem, que desertem ou desistam. Nessas horas o amior favor que a vida me pode fazer é esquecer-se de mim, de que existo apesar de tudo. Dos pesares dos pesares. Até do mal que dou em fazer a mim mesma, nesta tentação visceral de me acabar de uma vez só com tudo o que envenena e faz mal. Com tudo o que mata mas a mim teima em ir poupando. Por enquanto. Pelo menos. Até ver.
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