
Pensei, reflecti e decidi apoiar formalmente a candidatura de Marina à presidência do Brasil.
As primeiras reacções não demoraram muito a chegar. Vieram sob várias formas, umas mais delicadas, inteligentes e sadias do que outras. Em todo o caso, aquilo que me surpreendeu de imediato foi a irritação que causou em Portugal. Mais depressa esperava que o argumento da nacionalidade fosse esgrimido do lado de lá, não do lado de cá. Acontece que esse é um argumento que, pelo menos na blogoesfera nacional me escuso a tomar à discussão. Basta lembrar que, faz agora um ano, Portugal, como aliás o Mundo de lés a lés,se mobilizavam numa onda de apoio a Obama sem precedentes. À época, a todos pareceu coerente não ser cidadão americano, não poder votar nas urnas e ainda assim se desdobrar em campanha pelo candidato presidencial americano. Em momento algum após o 25 de Abril se assistiu a tão fervoroso entusiasmo, empenho e participação cívica em torno de um partido ou candidato português, como sucedeu em relação a Obama. Muita tinta correu a esse respeito e, se bem me recordo, da esquerda à direita era coincidente a conclusão de que o fenómeno só vinha demonstrar que os portugueses são, ao contrário do que os números galopantes da abstenção na última década pareciam diagnosticar, seres capazes de se interessar pela 'cousa' pública, capazes de se envolverem num projecto político, porquanto acreditem não apenas nele, mas nos rostos que por ele se batem.
Verifico agora que, ao que parece, eleito Obama, muito boa gente deixou de perfilhar essa opinião. Não condeno a mudança. As ideias são espelho da Natureza e, à ssua semelhança, também elas não são imunes a alteração. Aquilo que me surpreende não é verificar que tanta gente mudou de posição. Aquilo que me espanta é a enorme dificuldade que, meses volvidos encontrem em perceber fundamentos semelhantes àqueles em que eles próprios escoraram as suas militantes convicções.
Declarei publicamente o meu apoio a Marina Silva, ex-ministra do Ambiente das duas presidências de Lula. Durante este mandato demitiu-se do cargo e, recentemente, desfiliou-se do PT, partido de que era uma das pedras mais antigas e basilares. São públicas as suas razões e sobejamente conhecidas as suas motivações. Escuso-me a entrar por esse campo. Marina concedeu entrevistas e escreveu diversos artigos pelo seu próprio punho, disponíveis à distância de um clique na internet.
Ao que tudo indica, a actual senadora será candidata às Presidenciais de 2010. Contará com o apoio do Partido dos Verdes e um amplo movimento de cidadãos que clama pela sua entrada na corrida. Será pela primeira vez adversária de Lula e da candidata Dilma Rousseff, que ele e os petistas secundam.
Se, deste lado de cá do Atlântico, me movo por Marina Silva é pois porque Marina me pôs em movimento. Acompanhei atentamente o trabalho que desenvolveu no Ministério do Ambiente. Daqui, dos calos da Europa foi visível a diferença. Marina restaurou a credibilidade, colocou temas decisivos na ordem do Mundo e conseguiu a proeza de enfim abrir uma fenda moralizadora nas consciências colectivas do Velho Continente.
Não foi um milagre embora parecesse e, tal como é próprio dos milagres, não chegasse a durar até ao final do segundo Governo Lula da Silva. E se segredo há, ele é simples: Marina tem um projecto que assenta numa proposta de vida, condição primeira, aliás, de todo o projecto que queira mais do que dar-lhe pelo nome.
Mais: o projecto de Marina aponta claramente para um entendimento amplo do que seja isso de 'viver', no sentido de se ser um cidadão de um País que tem o Mundo por ar e chão como todos os outros. Da Coreia à Alemanha, do Japão aos Estados Unidos, de Brasília a Lisboa, passando pela Amazõnia até ir dar em África e no Hawai.
É nesse projecto que me revejo o bastante para o tomar por meu também, não obstante o meu cartão de eleitor dizer respeito à urna de uma velha freguesia de Lisboa.