Uma emissão muito especial, a de ontem, dia 10, na Antena 3, como já tinha deixado alerta aqui.
Tarde na noite, que é por excelência a 'Hora do Lobo'. A hora dele. A hora que sempre foi a sua. A de António Sérgio, o Grande Lobo. A voz soturna da madrugada e dos infíndos universos, que cresceu no pé da minha orelha e com isso me ampliou os sentidos e uma certa curiosidade inquieta que nunca mais me cessou cá dentro. A voz de António Sérgio, o Grande Lobo, a fazer do tempo da noite, do escuro e do FM da rádio um rasgão imenso de descobertas de valor inestimável que ainda hoje tenho dificuldade de avaliar com justeza. Ficávamos em silêncio, reverentes apenas à música e à paixão por ela partilhada, libertos do incómodo da palavra quando ela se torna supérfula. Somente em escuta. Eu e muito boa gente da minha geração, do lado de cá; ele, de auscultadores na cabeça, do lado de lá. Porque assim se colocava O Lobo, sábio dessa solitude que é condição prévia à verdadeira fruição, imune à vulgar tentação de disputar à música a ribalta e os minutos espalhados pelo éter, sem precisar de mais do que de deixar os álbuns correrem, falarem por si e a seu respeito dizerem o que de mais importante talvez houvesse a ser dito. Fora isso, só um pontuar discreto de microfone, a cerzir o que sobrava ao entendimento da escuta. E por longos anos ficámos assim, a desfiar essa espécie de fios de Ariadne madrugada a fora.
Para mim, António Sérgio foi o Grande Cúmplice, o educador decisivo, o companheiro exacto, tão presente quanto volátil, tão rotundo e grave quanto silencioso e mudo, sumamente atento e generoso na partilha do muito que há para desbravar na arte dos outros. A ele devo muitos dos trilhos por que me atrevi. Foi pela mão da sua voz que me ocorreram caminhos, pistas e veredas sem as quais seguramente não teria sido conduzida até aqui.
Ao Grande Lobo dessas horas nocturnas de espantos muitos sou, como é impossível que não seja, profundamente grata.
via Blogue da 3