06/11/2009

'Quero morrer numa batucada de bamba na cadência bonita do samba'

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Admirável!... Elza Soares, na sala Adoniran Barbosa, a estender o samba à homenagem de Ataulfo Alves.  Não é uma sequência fantástica de coincidências apessoadas?!
A íntegra do show, que fez palco em Setembro, lá no Centro Cultural de São Paulo, pode ser escutada aqui:

na Web Radio TV CCSP

' ...Sei que vou morrer, não sei o dia
Sei que vou morrer, não sei a hora...'

Estava aqui a saborear cada prega, cada vinco triturado dessa escuta e a pensar que, se morrer, já vai grande, já vai majestosa, a Soares. Mesmo que não pareça. Mesmo que até a ela lhe custe crer.

Pois é, (fizeram)... (disseram)... (falaram) tanto
endeusaram a mulata ( Elzinha) tanto, tanto
que ela resolveu me abandonar
a maldade nesta gente é uma arte
tanto fizeram que houve a separação
Mulher a gente encontra em toda a parte,
mas não se encontra a mulher
que a gente vê no coração... Pois é,!
Pois é! Pois é.

... estava aqui a escutar a voz enrolar-se, engasgar-se, perder-se sem nunca ter verdadeiramente a certeza de se reencontrar. Onde devia. Onde se buscava ou era esperada. Atrapalha-se mas não se afoba. Cala-se, cede a rima, aguarda nova deixa para voltar à estrada. Não a espanta o esquecimento, o acorde deixado em branco, o lapso, a falha, a fragilidade da memória.
Estava aqui a saborear o despropósito, o despudor, a degustar devagarinho essa coisa divinal que existe no avesso das coisas, no anti das coisas, enfim!... aqui afundada até às entranhas, que é onde mais se sente o clamor rouco da vida quando ela vem exuberante de gravidade. E peso. E tamanho. E espessura.

Leva meu samba, meu mensageiro
este recado para o meu amor primeiro
Vai dizer que ela era a razão dos meus ais
não, eu já não posso mais.

Eu que pensava que podia esquecer
mas qual o quê aumentou o meu querer
Falou mais alto no meu peito uma saudade 


Penso no pouco que lhe conheço da vida, esse conhecimento que por mais rendido ou cúmplice, nunca passará de um saber das coisas como quem sabe de coisa nenhuma, um avisado de fora e de longe, feito por conseguinte de amadorismo e ligeireza. Penso nos tropeços, nos destratos, nos descaminhos, nos desmandos da vida, da sorte, da cabeça que sempre se encarregou de fazer o corpo pagar preço alto. Penso nos fundos dos salões e dos teatros, nos bares de copo sujo, na bílis azedada, nos fígados roídos, no baton escorrido a esgaçar a boca larga de tanto se abrir, a enrugar o colo onde o peito empinou um dia. Penso nas rodelas pisadas debaixo dos olhos cavados, negros como o breu dos poços que a noite tem. E também penso no coração encarquilhado, esburacado, esgaçado, costurado sem alinhavo e por mil vezes remendado. E depois ocorre-me que rendeiras também são artistas. Rendeiras são divas de rendas, divas de rendas são, ao final das contas, rendeiras. É desse rendilhado que brota, muito possivelmente, a sua maior graça, o seu melhor dom, o seu único talento. O de se ser tormentoso e atormentar. Como Elza Soares fez e faz.
Formidavelmente, aliás.

Como aqui se escuta.

Em voz madura, de laranja bichada, voluntariosa e castigada, tumultosa e tumultuada, açanhada, mulata-morena-maioral, pouco ou nada habituada a 'calar no peito a dor' de sofrer do amor, censurada 'no seu  proceder', desdenhosa da mão que se levanta e tira a pedra.

Voltar não é se humilhar
' Vim buscar o meu perdão!'

(...)

Entretanto, alguma coisa aterra sem alarde na varanda. Bate leve, levemente... como uma lenga-lenga que já ninguém sabe dizer a quem pertence. Fica a bicar os vidros da janela, tal quando a chuva vem fazendo desde de manhã. Lembro-me do voo da codorniz, antes de Agosto. Não era. Nem chuva, nem a codorniz. Só uma gaivota mais delicada do que as outras, na hora de pedir arrêgo do cais. Volto. Elza já se vai despedindo do público. Percebo pelas palmas e por uma quase saudade que lhe chega às pausas mais enterameladas, quando fala.

(...)

O samba que abre é o mesmo que fecha.
Apuro o ouvido às entrelinhas, às subtilíssimas alterações que Elza vai introduzindo à letra jurássica de Mestre Ataulfo, às puxadas que escolhe para exaltar a cadência ao andamento.
Na entrada: «Quero viver! Quero morrer!»... «Viver! Morrer! Viver!»
«Quero viver! Quero viver!»... «Vou viver... morrer... viver... viver... viver!».
Na saída: «Eu vou-me embora!»... «Eu vou viver!»... «A hora chegou! »...

... esse vacilo, esse oscilar, esse devir que vai da vida à morte, que da morte vai até à vida...
... essa indecisão em trânsito... se uma, se outra... ora uma, ora outra... de uma à outra...
... Como no bolero de Elis:

'São                dois pra lá                 dois pra cá'

Grandiosa, a Soares. Imensa... Sem plumas nem ricochetes. Como uma bala à queima-roupa.
Grande (Ela!), em cima dos seus saltos. Trôpega (não que firme!), simplesmente incapaz de descer da vida em vida, por muito que a morte há muito já venha vindo e se achegando.

Voltar não é se humilhar
' Vim buscar o meu perdão!'

Somadas as contas, como vai cantando o samba de Ataulfo, na sala de Adorian, na voz de Soares: «diz o dito popular, morre o homem, fica a fama».

Será.


* foto de Sossô Parma

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