Quem diz de amor fazer que os actos não são belos
que sabe ou sonha de beleza? Quem
sente que suja ou é sujado por fazê-los
que goza de si mesmo e com alguém?
Só não é belo o que se não deseja
ou que ao nosso desejo mal responde.
E suja ou é sujado que não seja
feito do ardor que se não nega ou esconde.
Que gestos há mais belos que os do sexo?
Que corpo belo é menos belo em movimento?
E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento?
Olhos se fechem não para não ver
mas para o corpo ver o que eles não,
e no silêncio se ouça o só ranger
da carne que é da carne a só razão.
Jorge de Sena, A arte de amar
Trinta anos depois da publicação de Sinais de Fogo, e no momento em que se fosse vivo Jorge de Sena completaria 90 anos, o CCB propõe um dia de evocação do autor de Arte da Música:
Agente de uma certa ideia do amor (“só não é belo o que se não deseja ou o que ao nosso desejo mal responde”) e da liberdade (“o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos”), Jorge de Sena foi acima de tudo um agitador das ideias feitas, um corsário das palavras, um salteador de tesouros escondidos na nossa alma. Foi um fora-da-lei da consciência portuguesa do século XX, e é no desassossego que essa posição conota que se revela mais português e mais contemporâneo. Por isso, desde 1948 viu em Fernando Pessoa “um indisciplinador de almas”; por isso fez de Camões, o “seu” Camões, o mediador da aventura que é o seu constante diálogo com a pátria.
Poeta acima de tudo, mas também ensaísta, tradutor, ficcionista e investigador, Jorge de Sena fez do exílio uma razão acrescida de amar mais dolorosamente o país que era o seu. O seu regresso póstumo, já este ano, assinala uma espécie de reconciliação com Portugal.
Neste dia de evocação, haverá leituras de poemas e contos seus e de alguns dos seus ensaios sobre cinema e literatura, uma apresentação do romance que deixou incompleto e a projecção do filme que sobre ele foi realizado: Sinais de Fogo, de Luís Filipe Rocha.
# CCB - programa
1 Novembro às 14h30
Sala Almada Negreiros
Entrada livre
* imagens dos documentos do espólio do poeta, docente, ensaísta e prosador, que estão à guarda Biblioteca Nacional.







